Ensaio sobre a inovação

É pouco provável falar em design sem falar na inovação. De fato o resultado de um projeto de design é na maioria das vezes uma inovação, seja no produto, na produção, na venda ou em qualquer outro momento da cadeia produtiva. No mundo dos negócios a “inovação” atingiu um patamar onipresente, onde representa a necessidade constante da empresa em desenvolver novas vantagens competitivas, através de meios inéditos de se diferencias da concorrência e agregar valor a marca.

A inovação pode ser no produto ou serviço propriamente dito, mas não raro as maiores inovações acontecem em outras etapas do ciclo de vida do produto - fabricação, distribuição, venda, descarte - ou mesmo na descoberta de novas necessidades e maneiras do consumidor usar um produto. Com a democratização da tecnologia, globalização e toda essa velha história, a inovação enquanto evolução técnica do produto está comoditizada e é rapidamente superada.

Dois dos produtos de maior sucessos do momento são baseado em “inovações lowtech”. O PC ultraportátil Asus EEE e o videogame Nintendo Wii quebraram paradigmas com inovações nas necessidades do consumidor e na forma de interação com o produto, respectivamente. O primeiro é um PC barato e super compacto para acesso a internet, nicho não atendido pelos notebooks de 14″. E o segundo fugiu da competição direta com as gigantes Microsoft e Sony oferecendo um videogame com uma interação exclusiva que superou uma barreira inédita de penetração do videogame fora da faixa etária jovem.

Um dos clássicos exemplo de inovação “fora do produto” foi o conceito de linha de montagem implantado por Henry Ford, isso há várias décadas atrás. Anos atrás a Apple fez uma sileciosa inovação que passou um meio desapercebida: substituiu os processadores IBM por INTEL na sua linha de produtos. Com isso ela vai reduzir o custo de um dos componentes mais caros do computador, além de sanar uma das principais deficiências do MAC, que é a falta de programadores para a platataforma PowerPC da IBM.

O exemplo da Apple é especial para ilustrar que a inovação, nos dias de hoje, deve ser feita com critério a fim de não aumentar o preço dos produtos proporcionalmente acima do diferencial percebido. No caso da Apple o objetivo é justamente o contrário, diminuir o preço, demonstrando que nem só de inovações “bonitinhas” uma empresa hoje em dia pode sobreviver. Com as margens de lucro cada vez mais apertadas, ter escala é indispensável. A Apple tornou-se popular e não se restringe mais aos profissionais de editoração gráfica.

Nos anos noventa os guros do marketing gritavam a quatro cantos que o preço era secundário, o importante era “valor percebido”. Na minha opnião, essa afirmação exposta de forma radical e unilateral não vale mais para os dias de hoje (se é que já valeu algum dia). Até mesmo o famoso designer Philip Starck rendeu-se e declarou recentemente que o maior desafio do momento é a democratização do design (considerado uma das maior importantes ferramentas para a inovação).

Óbvio que agregar valor ao produto continua importante, mas isso hoje em dia é a regra e não exceção, por isso são cada vez mais importantes inovações que não onerem o custo final e que tragam benefícios aos clientes intermediários, pois neste ponto acredito que há grandes possibilidades de inovação.Se você inovar e facilitar o trabalho do distribuidor vai, por tabela, fazer seu produto alcançar mais e melhores pontos de vendas. Muitos produtos bem resolvidos em si, estão carentes de inovações nesse sentido.

Além da importância mercatil, a inovação exerce uma relevante função sócio-cultural. Inovar significa necessariamente romper com o velho e estrear o novo. Ou seja, nesse processo cíclico e constante de mudança e reciclagem, ela torna-se a própria representação do tempo.

O passado, por exemplo, é sempre representado pelo seus momentos especiais, a maioria desses momentos são inovações nas suas mais variadas formas: o homem pisando na lua, aquela banda inglesa etc. Da mesma forma o futuro é representado pelas inovações que estariam por vir, de acordo com a imaginação das pessoas: um mundo robótico, a cura de doenças.

O homen, quando define sua marca predileta, sua banda favorita, seu hobby, está definindo quem ele é no tempo e espaço que vive. Todas essas escolhas moldam sua personalidade e constroem suas relações sociais. Nos dois extremos estão o moderninho (aquele que se alimenta vorazmente de todo tipo de novidade) e o saudosista (aquele que não se incomoda de passar o resto da vida ouvindo somente sua banda predileta dos anos 80).

Pessoalmente eu acredito que ser radicamente saudosista é uma espécie de problema de personalidade, assim como ser ultra vanguardista e ignorar totalmente o passado é uma forma de alienação igualmente prejudicial à saúde social. Afinal, nada nesse mundo é totalmente original, tudo surge de uma associação de velhas idéias interpretadas e usadas de uma nova forma, ou seja, nos expressamos no presente com referências do passado.

Em palavras simples, considero a inovação um choque de idéias e conceitos, é aquilo que faz você acordar do “automatismo” do dia-a-dia e se sentir mais vivo e alimentado. No outro extremo, o velho é o seu porto seguro. É saber que determinada coisa já foi testada e aprovada, é a segurança da tradição. Por isso, o funtamentel é saber balancear tradição e novidade na medida certa.

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Jorge Sá

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